Produtor, empresário, radialista e compositor atravessou cinco décadas da cultura paranaense, esteve ligado à criação da Pedreira Paulo Leminski, marcou gerações no rádio e terminou a vida à frente do Parque Jaime Lerner
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Nazen Carneiro, exclusivo para o tudobeats
Curitiba perdeu neste domingo (30) um dos personagens que ajudaram a construir sua identidade musical. Hélio Pimentel Filho, o Helinho Pimentel, morreu aos 70 anos, em decorrência de complicações de uma pneumonia. Seu legado, no entanto, não cabe apenas na história dos grandes shows que passaram pela capital paranaense: atravessa rádio, rock, festivais, produção artística, gestão cultural e alguns dos espaços que modificaram a relação da cidade com a música.
O corpo de Helinho é velado nesta segunda-feira (31) na Ópera de Arame, dentro do complexo cultural que ocupou parte central de sua vida profissional. O prefeito Eduardo Pimentel decretou luto oficial em Curitiba. A escolha do local para a despedida tem uma dimensão simbólica difícil de ignorar. Ao lado está a Pedreira Paulo Leminski, espaço que Helinho ajudou a transformar em arena e cuja história se confunde com a sua própria. Nos últimos anos, como CEO do Parque das Pedreiras Jaime Lerner hoje Parque Jaime Lerner , ele continuava trabalhando na expansão do complexo.

De Leminski à música brasileira
A relação de Helinho com aquele pedaço de Curitiba começou muito antes da existência de um palco. Em 1971, aos 16 anos, conheceu Paulo Leminski e Alice Ruiz e passou a frequentar a casa do casal. A proximidade atravessaria os anos. Leminski tornou-se aquilo que Helinho posteriormente definiria como um “amigo-irmão”. Era uma Curitiba culturalmente conectada às transformações que aconteciam no Brasil, mas distante dos grandes centros da indústria musical. Helinho, Leminski e Alice Ruiz circulavam por esse ambiente e chegaram a se definir informalmente como “embaixadores da Bahia em Curitiba”. Quando artistas baianos passavam pela cidade, esses encontros aproximavam o grupo de nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Moraes Moreira.
Em 1978, Helinho e a mulher se mudaram para o Pilarzinho, a poucos metros de Leminski. Na casa de madeira onde vivia, montou um pequeno estúdio com piano e recebeu músicos como Alceu Valença, Nando Reis, Gilberto Gil e Flora Gil. A música já não era somente uma referência cultural: começava a se transformar em profissão.
Quando rock no rádio ainda era exceção
Antes de se tornar produtor de grandes eventos, Helinho passou pelo rádio. Em meados dos anos 1970 apresentou A Grande Alquimia, programa da Rádio Cruzeiro do Sul AM exibido de segunda a sexta-feira, das 21h às 23h. Rock, informação e cultura musical ocupavam duas horas de uma programação feita numa época em que Curitiba sequer tinha o ecossistema de rádios FM que surgiria posteriormente.
Em 1979, decidiu passar do rádio para o palco. Produziu no Círculo Militar o Adeus, 70, reunindo Tutti Frutti, Blindagem e Bixo da Seda. Fazer um show de rock daquele porte em Curitiba implicava resolver problemas que hoje parecem elementares: a cidade não tinha sequer uma empresa de sonorização preparada para a produção, obrigando a equipe a buscar equipamentos fora do Paraná. A experiência abriu outra frente. Helinho começou a organizar turnês pelo Sul do país e estabeleceu relações profissionais com músicos como Dadi Carvalho, Pepeu Gomes e Baby Consuelo. Aos 26 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a trabalhar com artistas ligados àquele núcleo da música brasileira.
O rádio, porém, voltaria à sua trajetória de maneira decisiva. A Estação Primeira FM tornou-se uma referência para ouvintes que buscavam uma programação fora do circuito convencional, passando por rock, jazz, blues e MPB. Mais tarde, Helinho também esteve envolvido com a 96 Rock e foi fundador e primeiro diretor artístico da Mundo Livre FM. Num período anterior ao streaming e à descoberta algorítmica, rádios com curadoria tinham papel direto na formação do repertório de uma cidade. Helinho estava entre as pessoas que faziam essa curadoria.
O sonho de uma pedreira transformada em palco
É na Pedreira Paulo Leminski, entretanto, que sua trajetória individual encontra de maneira mais clara a transformação cultural de Curitiba. Helinho já conhecia aquele território antes de existir qualquer projeto de arena. A proximidade geográfica e a amizade com Leminski faziam parte dessa história. A ideia de que a antiga pedreira poderia receber música antecedeu a própria construção do espaço. Em 1990, o então prefeito Jaime Lerner chamou Helinho para uma reunião justamente na pedreira abandonada. Lerner perguntou se seria possível transformar a cratera em uma arena de shows. Para Helinho, aquela proposta recuperava uma ideia que já fazia parte das conversas e da imaginação de anos anteriores.
Em relato escrito pelo próprio produtor, ele lembrou que acabou “extraoficialmente eleito” o “prefeito da Pedreira”, assumindo a missão de ajudar a viabilizar o espaço. Cerca de 90 dias depois, o projeto estava pronto. Antes da inauguração formal, um evento em homenagem a Paulo Leminski reuniu aproximadamente duas mil pessoas no local ainda sem infraestrutura completa. A Pedreira Paulo Leminski passaria a integrar o circuito brasileiro de grandes concertos. Mais do que acrescentar um endereço ao mapa cultural da cidade, sua existência modificou a escala possível para apresentações em Curitiba. Décadas depois, Helinho voltaria ao mesmo espaço para uma segunda transformação.

Da reabertura ao Parque Jaime Lerner
Depois de permanecer interditada desde 2008, a Pedreira entrou em um processo de recuperação sob concessão vencida pela DC Set. Helinho atuava como diretor de operações da empresa e participou diretamente da retomada. A reforma envolveu aproximadamente R$ 17 milhões em investimentos e incluiu reconstrução do palco, mudanças de segurança, acessibilidade e infraestrutura para receber novamente produções de grande porte.
A reabertura em 2014 iniciou uma nova etapa. O trabalho deixou de ser apenas recuperar uma arena e passou a pensar a relação entre a Pedreira, a Ópera de Arame e o território ao redor. Helinho também esteve associado ao Lupaluna, festival que reuniu diferentes vertentes musicais e ocupou posição relevante no calendário de grandes eventos do Paraná. A Prefeitura de Curitiba o identifica como responsável pela criação do festival, além de destacar sua participação nas rádios e na consolidação da Pedreira.
Nos últimos anos, já como CEO do Parque das Pedreiras Jaime Lerner e sócio da DC Set, seu trabalho voltou-se à transformação do complexo em um espaço de funcionamento permanente, em vez de um endereço ativado somente nos dias de grandes shows. Dessa visão surgiram projetos como o Vale da Música, o Estúdio Geração Pedreira e a Rua da Música, inaugurada em julho de 2025. O novo eixo passou a conectar fisicamente a Pedreira Paulo Leminski à Ópera de Arame por meio de música, espaços culturais, gastronomia e áreas de convivência.
A ambição era maior: consolidar naquele território um parque dedicado à música.
Produtor, mas também compositor
A atuação nos bastidores acabou tornando menos conhecida outra dimensão de Helinho: ele também foi músico e compositor. Sua relação com o Blindagem, uma das bandas fundamentais do rock paranaense, ultrapassou a produção e a convivência com seus integrantes. Helinho assinou composições em parceria com Ivo Rodrigues e outros músicos ligados ao grupo, conectando sua trajetória diretamente à produção artística da cena que ajudava a desenvolver.
Essa sobreposição de funções ajuda a explicar sua presença durante cinco décadas. Helinho transitou entre o microfone do radialista, a composição, a produção de shows, o empresariamento artístico, festivais, emissoras de rádio e, posteriormente, a administração de equipamentos culturais. Em dezembro de 2025, esse percurso recebeu reconhecimento institucional com a concessão do título de Cidadão Benemérito do Paraná pela Assembleia Legislativa. Ao receber a homenagem, resumiu sua trajetória colocando novamente a música no centro: dizia entender sua missão como a de um agente promotor daquela que considerava a “grande mãe da arte”.
Uma história que termina onde começou
Há uma circularidade particular na trajetória de Helinho Pimentel. Um jovem ligado ao rock e à contracultura aproximou-se de Paulo Leminski no início dos anos 1970. Anos depois, os dois viveriam praticamente como vizinhos no Pilarzinho, próximos a uma pedreira que ainda não tinha palco, nome ou público. Em 1990, Helinho recebeu de Jaime Lerner a tarefa de ajudar a transformar aquela paisagem em uma arena. Décadas depois, retornou para participar de sua recuperação e terminou a vida profissional como CEO do complexo construído ao redor dela.
Sua última grande aparição pública ocorreu em 7 de agosto de 2026, durante a comemoração de um ano da Rua da Música e de seus 70 anos. Ali, voltou a falar sobre sua trajetória e sobre o espaço que continuava ajudando a construir. Pouco mais de três semanas depois, morreu no Hospital São Vicente. Helinho deixa esposa, quatro filhos e quatro netos. Deixa também algo menos mensurável: parte da infraestrutura cultural e da memória musical de Curitiba. Estação Primeira, 96 Rock, Mundo Livre, Lupaluna, Pedreira Paulo Leminski, Ópera de Arame, Rua da Música e Parque Jaime Lerner são capítulos diferentes de uma trajetória que acompanhou a transformação da cidade de um mercado periférico para grandes produções musicais em uma parada estabelecida no circuito nacional e internacional.
Nesta segunda-feira, Curitiba se despede de Helinho justamente na Ópera de Arame, ao lado da pedreira onde uma parte significativa dessa história aconteceu. Talvez seja difícil encontrar um endereço mais adequado para encerrar esse percurso.

