Superbet torna-se a primeira plataforma de apostas a ocupar o posto de patrocinadora oficial do festival, em contraste com artistas que cobram limites para a publicidade do setor.
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A Superbet tornou-se, em 2026, a primeira plataforma de apostas a ocupar a posição de patrocinadora oficial do Rock in Rio. Pasmem.
Enquanto parte da classe artística brasileira se mobiliza para alertar sobre os danos provocados pelas apostas digitais, o Rock in Rio 2026 escolheu o caminho inverso. A Superbet, apoiadora da edição de 2024, foi promovida à condição de patrocinadora oficial e tornou-se a primeira empresa de apostas a ocupar essa posição na história do festival. A decisão não se resume à exposição de uma logomarca: entrega à plataforma mais de 600 metros quadrados de ativações, espaços de convivência, jogos, tecnologia, brindes e associação direta com a música, a cultura e uma audiência formada também por jovens.
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A dimensão do problema torna essa parceria difícil de tratar como uma operação publicitária comum. Estudo do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, elaborado com o Centro Internacional Celso Furtado a partir de dados do Banco Central, estimou que R$ 62,5 bilhões saíram de forma líquida do orçamento das famílias brasileiras para as bets em 2025. O valor não representa o total apostado: as transferências via Pix teriam alcançado R$ 350,97 bilhões. Dados preliminares do Ministério da Fazenda, limitados às empresas autorizadas em âmbito federal, apontaram R$ 220,6 bilhões em depósitos e R$ 36,9 bilhões convertidos em receita das operadoras. As diferenças metodológicas exigem precisão, mas todas as medições revelam um mercado de escala bilionária e ampla penetração social.
“Oferecer à primeira bet patrocinadora oficial uma das maiores vitrines culturais do país não representa avanço: representa uma decisão socialmente irresponsável que o Rock in Rio precisa explicar”.
Extraído de e-mail enviado a redação por pessoas que estiveram no evento
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O impacto ultrapassa a perda financeira. O estudo “A saúde dos brasileiros em jogo”, desenvolvido pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, Umane e Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental, estimou em R$ 38,8 bilhões anuais o custo social e econômico associado aos jogos no Brasil. Aproximadamente R$ 30,6 bilhões estariam relacionados à saúde, incluindo depressão, perda de qualidade de vida, tratamentos e mortes adicionais por suicídio. O levantamento também estima que cerca de 12,7 milhões de brasileiros estejam em situação de uso arriscado. O próprio Ministério da Saúde reconhece o transtorno do jogo como uma condição de comportamento aditivo e passou a oferecer atendimento específico pelo SUS, inclusive aos familiares afetados.
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É nesse cenário que a Superbet instala, dentro da Cidade do Rock, uma estratégia desenhada para transformar a marca em experiência. A operação inclui a Arena Super, edifício de três andares próximo ao Palco Sunset, com jogos como Headliner Run, Crowd Dive e Super Bands; o brinquedo Discovery, batizado pela empresa; um ponto fotográfico no Global Village; a ferramenta Super Sensation, que mede reações do público; e o Game dos Superfãs, disputa digital que acompanha o envolvimento dos fandoms. No New Dance Order, copatrocinado pela marca, um cubo de LED de 100 metros quadrados oferece uma experiência imersiva com imagens, som, luz, vento e distribuição de pins.
A empresa informa que as ações exigem cadastro, são destinadas exclusivamente a maiores de 18 anos e incorporam princípios de jogo responsável. Essa restrição, porém, não elimina a exposição geral da marca nem resolve a questão ética central: ao associar apostas a música, tecnologia, emoção, brindes e pertencimento, o festival contribui para naturalizar um produto relacionado a endividamento, dependência e sofrimento familiar. Legalidade e responsabilidade social não são sinônimos. Em um evento que reúne diferentes gerações e se apresenta historicamente como plataforma de impacto cultural, transformar uma bet em parte da diversão é uma escolha que merece ser questionada.
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A contradição torna-se ainda mais evidente porque Gilberto Gil, uma das atrações centrais desta edição, integra a campanha “Dê Block no Tigrinho”. Organizada pelo movimento 342 Artes, a mobilização reúne Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan, Paulinho da Viola, Marieta Severo, Emicida, Camila Pitanga, Cláudia Abreu, Letícia Sabatella e outros nomes. O movimento pede regras mais rígidas para a publicidade e procura conscientizar a sociedade sobre os danos das apostas, sobretudo entre jovens, famílias endividadas e pessoas vulneráveis.
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Ao debate ético somaram-se as reclamações sobre a experiência oferecida no primeiro fim de semana. A chuva de 6 de setembro expôs a falta de áreas cobertas suficientes, com grandes poças, frio e poucos lugares secos para descanso. A imprensa registrou esperas de aproximadamente 20 minutos nos sanitários próximos à Gourmet Square, apesar de o aplicativo indicar cabines disponíveis. Confome publicado pela VEJA Rio, nas redes sociais, vídeos e comentários ampliaram as queixas, citando lama, banheiros sem papel, filas de até duas horas em ativações, alimentação insatisfatória e desorganização. Esses últimos relatos não foram todos verificados de forma independente e não devem ser apresentados como conclusão geral, mas o volume das manifestações contrasta com a estrutura anunciada de 1.314 banheiros e com o investimento dedicado a mais de 100 experiências comerciais.
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O Rock in Rio prevê movimentar R$ 3,36 bilhões na economia do Rio e receber cerca de 700 mil pessoas. Justamente por ocupar essa posição, suas escolhas comerciais não são neutras. Um festival pode precisar de patrocinadores, mas também precisa definir quais indústrias deseja legitimar diante de seu público. Conforme informado pelo UOL, quando bilhões deixam o orçamento das famílias, o SUS cria serviços para atender dependentes e artistas pedem limites à propaganda, oferecer à primeira bet patrocinadora oficial uma das maiores vitrines culturais do país não representa avanço: representa uma decisão socialmente irresponsável que o Rock in Rio precisa explicar.

