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UMA VIAGEM PELO DETROIT TECHNO WEEK 2016

 
Confira o relato de como é participar de todos os dias (e festas) da Semana de Techno de Detroit”
 

Exclusivo para a Coluna Tudobeats. Felipe Muller é curitibano cofundador da festa Alter Disco.

Publicamos aqui na coluna Tudobeats sobre a Semana de Techno de Detroit – Detroit Techno Week –  estrelada pelo Festival Movement e suas dezenas de afterparties. De olho neste grande evento a coluna Tudobeats pegou carona na viagem de Felipe Muller, que fez um relato exclusivo e contou pra gente um pouco da experiência dele neste que é, hoje em dia, um dos principais eventos de música eletrônica do mundo.

Chegar em Detroit é sempre uma experiência carregada: uma das principais metrópoles americanas nos anos 50, a cidade perdeu desde então quase dois terços de sua população, declarou falência, e foi uma das protagonistas da maior crise econômica dos últimos 80 anos. Mesmo com as recentes obras públicas, novos restaurantes e cafés, e revitalização do centro, Detroit ainda tem 40% da população vivendo abaixo da linha da pobreza, bairros inteiros deteriorados, e uma sensação persistente de se estar em um lugar abandonado e esquecido.
É neste contexto, também, que a histórica efervescência cultural da cidade possibilitou a criação de um verdadeiro pedigree musical, desde o soul característico da Motown (aka Motor City) Records dos anos 60 até os primeiros experimentos com drum machines no formato 4×4, dos então jovens produtores Derrick May, Juan Atkins e Kevin Saunderson. A exportação do techno para a Europa e a popularização do gênero expandiram o alcance e acessibilidade da música eletrônica, mas em Detroit o techno underground se tornou uma força implacável: no fim dos anos 80 os produtores Jeff Mills, Carl Craig, Underground Resistance e Moodymann estabeleceram firmemente a cidade como um ícone mundial da música eletrônica.
Carl Craig foi também o responsável pelo primeiro Detroit Movement, que aconteceu (de graça, diga-se) em 2000 e mostrou as facetas dos talentos locais – Dj Rolando, Derrick May, e J Dilla entre eles. Desde então, o festival vem acontecendo anualmente, e este ano reuniu 40,000 pessoas diariamente, com after parties para todos os gostos e tipos. Conto aqui os destaques do meu segundo Movement: 6 pistas, sol, calor de 30 graus, e muito som.
Day 1 – meu primeiro set foi de um dos novos talentos locais: aos 24 anos, Kyle Hall fez homenagem ao house e techno de sua cidade natal, com muita percussão e poucos, mas belos acordes, remetendo muito aos sons do Omar S, Andrés, e Theo Parrish. O dia começou muito bem. Em seguida, fui ver o Seth Troxler tocar no palco principal, também em sua terra natal, para um público ansioso e bastante receptivo. Com uma linha de techno um tanto quanto grave e minimal, Seth demorou até conseguir comandar o público. No fim do set, influências latinas e disco criaram momentos mais eufóricos, mas as frequências graves predominaram. Um pouco mais de trebble teria caído bem.

 

Seth Troxler no main stage
Voltando ao Red Bull Music Stage (o palco mais legal do festival), peguei o final do set do Dam Funk, artista de funk de LA com uma coleção de discos invejável e um live act bastante dinâmico. Dam Funk misturou DJ set com live performance, falou muito no microfone, e fechou com uma interpretação em cima de uma faixa do novo disco do Omar S. O público respondeu, e Dam Funk deu boas vindas ao Kenny Dope, metade do Masters at Work. Nem Soulful House e nem Hip Hop, Kenny Dope optou por um deep house moderno e elegante. Não recorreu a momentos fanfarrões e preferiu deixar o público focado e trancado em seu groove. Master, indeed! Uma pausa, uma cerveja, mas o line up continua.
Era hora de ver Four Tet. Sempre um dos meus favoritos, Four Tet fez um set cheio de produções próprias e músicas que ele vem tocando há muito tempo: Love Cry, KHLHI do seu projeto Percussions, e o hit-drum-machine Africano do Ajukaja, Benga Benga, que nunca falha em entregar um momento de catarse coletiva. A receita pode parecer simples: escolha um Afrobeat correto e execute uma 909 em cima. Mas o resultado é uma das faixas que vem sido tocada há anos por muitos DJs Classe A, e um dos melhores momentos do set. Para fechar a noite, Kraftwerk comandou a cidade do techno com a frieza e precisão germânica de se esperar: uma tremenda ode às máquinas e a prova queDetroit e Alemanha são mais próximas do que se imagina.
Kraftwerk – Main Stage

“After Party: Soul Clap’s House of EFunk. Buscando relaxar da maratona, a festa do Soul Clap no TV Lounge foi a pedida perfeita. Muita discotecagem em vinil a céu aberto garantiu que os pés continuassem.”

Amp Fiddler misturou live performance e DJ, e sua marca distinta de jazz, funk e house desceu suave. Kon trouxe sua linha de disco, com muitas raridades e turntablism de brilhar os olhos. Maurice Fulton, Norm Talley e Overdubs, projeto live do Scott Grooves, forneceram house e techno para os ainda famintos, enquanto Biz Markie fez um set apenas de 45” – discotecagem avançada e irreverente. A noite terminou com muitos discos.
Day 2 – Cheguei e logo assisti o set da The Black Madonna, DJ de Chicago que atualmente está em alta demanda. Seu set foi extremamente eclético, desde Len Faki até a hit disco Is It All Over My Face, do Loose Joints (projeto do Arthur Russel), passando por Kraftwerk e um pouco de Chicago House. O dinamismo do set manteve a galera super animada e Black Madonna saiu ovacionada.
The Black Madonna – RBMA Stage

Na pista seguinte Magda comandava o fim de tarde com seu techno característico e pesado, e a multidão estava gostando.

 Assisti 15 minutos, mas corri para o próximo palco para ver uma das atrações que eu aguardava com muita ansiedade: Mike Huckaby. DJ e Produtor lendário de Detroit, Huckaby fez, sem dúvida, um dos melhores (senão o melhor) set do festival. Sua marca de techno hipnótico, quadrado, e envolvente leva influências de Chicago House e Detroit Soul. Entre produções próprias e obscuridades, o set 100% em vinil teve momentos de êxtase, uso de samples impecável, e uma energia surreal. Algumas centenas de pessoas dançavam como se não houvesse, e aplaudiram Huckaby por mais de 5 minutos no fim do set. Coisa linda demais!
Mike Huckaby no Opportunity Detroit Stage
Depois disso, uma voltinha pela Ellen Alien, uma olhada no live do Amp Fiddler, e uns 2 minutinhos de Tale of Us. Era hora de ir embora!
After Party: Ok Cool. Chegamos para ver o finalzinho do set do Rick Wade, já representando no house fino para preparar o campo para a próxima atração: o duo lendário de House Mood II Swing. Fizeram um set deep+soulful de NY House, tocando inúmeras faixas próprias (aliás, acho que o set todo foi de produções deles). Um set lindo de um duo que dispensa qualquer apresentação. Em seguida, Seth, aliviado da pressão de um main stage de festival, fez um set bem mais relaxado e irreverente, e mostrou porque continua nos holofotes após tanto tempo. Após o fim do seu set, uma pausa (enquanto o Heartthrob fazia um live brutal de techno), esperando ansiosamente pelo início do set do Eddie C. O canadense fez, no meu ver, o melhor set de todo o fim de semana: munido de um E&S DJR400 e um par de Technics, exibiu uma seleção impecável com influências de disco, afro e deep house, executada com mixagens impecáveis e um senso de “storytelling dj set”. Os sets de Eddie C nos afterparties do Movement já adquiriram status lendário entre conhecedores, e finalmente entendi o motivo. Definitivamente um dos melhores sets que já presenciei.
Eddie C at Ok, Cool Party
Com um final tão glorioso, permiti me resguardar pelo restante da viagem e troquei o terceiro dia de festival por um rolê em Detroit. Os ouvidos e a alma já estavam devidamente saciados, e foi uma boa maneira de encerrar o fim de semana de Techno Tourism.
Exclusivo para a Coluna Tudobeats. Felipe Muller é curitibano cofundador da festa Alter Disco.
 
 


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